Arco da Velha, o Arco da Reinação: texto epigramático – 2

1. Ante-scriptum

Eu intentava fazer um epigrama favorecendo a rima em ‘elo’… Ainda me chegou a vir, vejam bem, ‘Marcelo’. Mas em toda a comunicação social, em todos os jornais que tinha à mão, só encontrei Marcelo… Marcelo… e nada mais: só Marcelo… Foi então, que de repente (vejam vocês o que é a inspiração!) veio-me uma ideia que achei brilhante: mas porque é que um epigrama há-de ter rima? E, mais ousado: mas porque é que um epigrama tem de ser em verso? E então, atirei para a estante o Dicionário de Rimas de Costa Lima, e aí vai, pois, um “texto epigramático” (direi eu), mas, desta vez, em prosa! Que mo relevem os normativos em géneros literários!…

2. Scriptum

Como fica dito no ante-scriptum, andava eu à procura de palavras em ‘elo’, para rimarem neste meu dito epigrama: ‘elo’, ‘elo’, ‘elo’, e (atrevo-me a dizê-lo), em boa verdade, vinham-me constantemente à lembrança muitas e variadas palavras terminadas em ‘elo’ (martelo, cogumelo, marmelo…), mas na sua maioria não eram lá muito dignas; algumas delas chegavam mesmo a roçar a indignidade, e de forma nenhuma me atreveria a usá-las neste texto que presumo ser sério…

E vai daí, pedi socorro a uma pequena parte da Comunicação Social que eu considero isenta e mesmo séria. Por exemplo, transcrevo [com a devida vénia] umas boas linhas da crónica O Presidente pescada, de Paulo Baldaia (in DN 13/12/15, p.9):

“Marcelo Rebelo de Sousa, que antes de ser Presidente (eleito) já é Presidente (assim visto pela maioria dos políticos, dos jornalistas, dos outros candidatos e das sondagens) parece a pescada que antes de ser pescada (pelo pescador) já era pescada (de nome). O que hoje diz Marcelo conta mais do que diz qualquer outro candidato e iguala o que diz o Presidente ainda em funções. Como se tivéssemos dois presidentes, o que está e o que vai estar.” [15 primeiras linhas do 1º parágrafo].

E ainda da mesma crónica:

“Nas presidenciais que terão lugar no dia 24 de Janeiro de 2016, só dá Marcelo Rebelo de Sousa. Para os candidatos das esquerdas, o handicap são as fracas intenções de voto com que estão na pré-campanha […]. O comentador Marcelo que disse na TVI há muitos meses que um candidato da direita só ganhava presidenciais à primeira volta, é o verdadeiro director de campanha do candidato Marcelo. Em português diríamos que é um homem só, mas é na expressão inglesa one man show que melhor se percebe porque consegue Marcelo apresentar-se como independente. Ele basta-se a si próprio. […] [ DN 13/12/2015, p. 9].

3. Missa na TVI (Telejornal das oito)

Quantos anos durou a celebrada pré-campanha (sua, está claro) na missa da TVI, depois do telejornal das oito? Quantos anos? Missa do domingo, sempre vale mais do que o tercinho diário… E assim, devoto, é que a gente quer um Presidente! Um único oficiante, acolitado por uma menina-do-coro angélica, em que, se oficiante diz mata, a menina-do-coro, angélica, diz esfola… E as assistentes, mulheres mais ou menos piedosas dizem ‘à-mãe’, porque o homem diz muito e bem, como lhe convém. Prova de tal tive-a quando há dias entreguei um epigrama e várias me disseram: mas olha que ele fala muito, fala bem, melhor do que o vendedor de banha!… Depois, como é muito católico, a gente gosta muito. Não, não sei, em quem votarei. (Olha, está-me querendo sair o epigrama em verso!…).

 

António Ínsulo
Pombal, 15/12/2015

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