Quão

Setembro 2, 2015 - 2 Respostas

De uma mensagem de pessoa amiga (não digo se homem ou mulher para tornar mais fácil o anonimato) tirei o advérbio “quão”, usado por duas vezes na dita mensagem:

1. “… mostrar o quão bom lugar é [esta terra]…”
2. “De resto, espero que esteja tudo bem [….. ]. Espero também que vá dando novidades, pois sinceramente fico a sentir-me mal quando recebo estes e-mails e percebo à quão tempo [sic] não falava consigo.”

Trata-se de um advérbio de quantidade que tem no latim o étimo correspondente – quam – e a mesma ideia significativa de quantidade, quase sempre comparativa. Mas vamos às gramáticas e aos dicionários buscar a classificação e o uso correcto em contexto discursivo:

Quão, adv. (lat. quam). Quanto, como: quão desgraçado eu sou! Tão feia quão bondosa. (Dicionário Prático Ilustrado, Lello).

“Outros advérbios de quantidade: pouco, menos, demasiado, quão, tanto, tão, assaz, que…” (Compêndio de Gramática Portuguesa. A Gomes Ferreira, J. Nunes de Figueiredo, Porto Editora (edição mais recente).

Comentários aos dois usos referidos:

1. Não é muito usado assim, mas preferindo-se este uso, ficaria mais confome a norma, suprimindo o artigo inicial, ficando assim a frase: quão bom lugar é esta terra.

2. “à quão tempo…” é incorrecto: ‘à’ está errado, deve ser ‘há’ do verbo haver; e, em vez de ‘quão’ usar ‘quanto’: Há quanto tempo te não vejo!

E daqui podemos passar ao nome que os eruditos (gregos, claro) deram a este tipo de erro ou vício de linguagem: solecismo. Solecismo porquê? Eis (trancreve-se do mesmo Dicionário Prático Ilustrado da Lello):

Solecismo. Substativo masculino (gr. Soloikismos, lat. soloecismu. Erro contra as regras da sintaxe: houveram homens por houve homens [Este desgraçado verbo haver que anda por aí assim tão desgarrado!…]. Por extensão, qualquer erro ou falta. Falava-se muito mal o grego, em Soles, cidade da Silícia, fundada pelos Atenienses. Do nome dos habitantes dessa cidade provém a palavra solecismo.

Dois grupos lexicais parónimos e não homónimos

Agosto 4, 2015 - Leave a Response

Ante-scriptum: Na loja onde comprei os óculos, sentado diante da secretária da senhora atendedora, olhei à minha volta, para o décor da sala, e vi, em vários sítios, a palavra óptica (assim escrita com o “p” antes do “t”). Noutros sítios estava ótica (sem, ´p´, como, por exemplo, no saco em que me entregaram os meus óculos). À entrada do supermercado em que está integrada a loja, podemos ver no cartaz da dita, em letras garrafais de publicidade, a palavra ótica sem o “p”. Foi por isso que me decidi a compor este ’post’.

1.
ÓPTICA
(nome substantivo): parte da física que se ocupa da luz e dos fenómenos da visão (ou de artigos que têm a ver com a visão, como, p. e., óculos… (Etimologia: do substantivo grego optiké).
ÓPTICO/ÓPTICA (adjectivo): referente à óptica ou à vista; visual; o que fabrica instrumentos de óptica; oculista […].

Atenção à ortografia e mesmo à prosódia: por mais que “uma coisa obscena chamada Acordo Ortográfico” (na feliz expressão de Vasco Graça Moura) insista na asneira de os considerar homónimos, nunca este grupo (da óptica) poderá deixar de se escrever com o ‘p’ que precede o ‘t’, Por duas razões, a etimológica e a prosódica: é que aquela consoante “p” não será assim tão muda (quando muito, poderia dizer-se “semimuda”, porque os falantes sabedores pronunciam-na: “óptica”, pois.

2.
ÓTICO/ÓTICA (adjectivo): do ouvido; relativo ao ouvido; diz-se do medicamento contra as dores dos ouvidos. [Etimologia: do grego ótikos, “auricular” pelo lat. oticu; da mesma família do “oto” de otorrinolaringologia; elemento de formação de palavras que exprime a ideia de “ouvido”: do grego ous- otós – ouvido ].

Nota final: Posto isto, não vejo onde possa haver confusão entre as palavras destes dois grupos lexicais, nem que razão assistirá a esses ignorantes que mandam escrever as palavras do grupo 1 sem “p” ou do grupo 2. com “p”!…

Europa de hoje (União Europeia) e Europa dos tempos feudais: que diferença?

Julho 25, 2015 - Leave a Response

É na primeira página do DN de 14/07/15: aquela gargalhada dos três, entre os mandões maiorais do Eurogrupo, foto explicada em legenda sobreposta, na qual se vê, bem realçado, o riso alvar mostrando os dentes até bem ao fundo da garganta, de um tal senhor Djisselbloem. Para ficar mais completo o grupo, sentimos nós que falta lá pelo menos uma quarta gargalhante: a chanceler Merkel, pois claro. São estes, e mais alguns, os novos suseranos da Europa de hoje, União Europeia chamada (UE). Será então bem oportuno perguntar: entre os novos suseranos da Europa de hoje (UE) e os suseranos da Europa dos Tempos Feudais, que diferença?!

Querem vocês ver? Vejam:

Das quatro idades em que se costuma dividir a História Universal – Antiga, Média, Moderna e Contemporânea –, a Idade Média é, sem dúvida, a mais longa e, por ventura, a mais negra. Convém ver, numa boa enciclopédia, as seguintes entradas, sobre as instituições e principais aspectos característicos da Época Medieval, a saber: Feudalismo, Cruzadas, Inquisição, Escolástica (Filosofia serva da Teologia). Mas, vamos então ao

FEUDALISMO (de origem germânica). “Os reis bárbaros conseguiram êxito nas invasões graças sobretudo aos seus bandos de companheiros ajuramentados e dedicados. Em particular Clóvis (adrede baptizado cristão) deveu ao seu globus o domínio da Gália. E em breve toda a Europa era feudal [atentem ao radical globus]. O vínculo entre o vassalo e o senhor (suserano) é criado pelo juramento e os deveres originados do juramento exprimiram-se pela palavra obsequium. O vassalo, de joelhos e desarmado, punha as mãos unidas nas mãos do seu senhor e declarava-se seu homem por tal feudo; o senhor levantava-se, beijava-o na boca e depois o vassalo, de pé, prestava, sobre o Evangelho, o juramento de fidelidade a que correspondia da parte do senhor a investidura.” (Das enciclopédias).

Pergunta-se agora: o que é que falta a estes mandantes (na sua maioria nem sequer eleitos pelos vassalos, quanto mais pela legião de escravos dos pobres dos povos europeus!
– Sim, o que falta? O que é que falta?
– Apenas o rito, que é subentendido lá entre eles…

Então, voltemos ao princípio: Europa de Hoje (União Europeia (EU) e Europa dos Tempos Feudais. Que diferença?!…

Um pedaço de bolo óptimo

Julho 24, 2015 - Leave a Response

Era , na Rádio, um dia destes, o Jogo da Língua. De uma frase que poderia ser esta do título, fazia-se a seguinte pergunta:

“a palavra ‘óptimo’ corresponde ao adjectivo ‘bom’ no grau superlativo absoluto
a) sintético
b) analítico
Qual das duas alíneas está correcta?”

O concorrente lá foi pensando, lá foi tentando dizer e, com uma ajudinha, já não me lembro se acertou ou se errou. Mas tal também não interessa agora para o que me traz aqui. O que aqui me interessa tem a ver com a explicação da senhora doutora supervisora. É que, depois de dizer que o comparativo de superioridade do adjectivo ‘bom’ é ‘melhor’, disse, seguidamente, que o comparativo de inferioridade do mesmo adjectivo é ‘pior’ e foi precisamente por este busílis que me decidi a comentar o caso. A comentar afirmando que, aqui, está errado: pois toda a gente devia saber que ‘pior’ não pertence à flexão do adjectivo ‘bom’, mas sim do seu antónimo ‘mau’. Resumindo, ‘pior’ é o grau comparativo sintético de superioridade do adjectivo ‘mau’ que também tem uma forma analítica: ‘mais mau’, o que não acontece com o adjectivo ‘bom’ que apenas tem uma forna analítica: ‘menos bom’. A confusão aqui intrometida vem, certamente, do facto de os dois adjectivos – bom e mau – serem antónimos em todas as formas flexivas: pior é antónimo de melhor; péssimo é antónimo de óptimo. As formas flexivas do adjectivo ‘bom’ só poderão ter, com as do adjectivo ‘mau’ uma relação semântica de antonímia, e não uma relação morfológica de flexão.

‘Pior’ é comparativo de superioridade de ‘mau’; o de inferioridade é o analítico ‘menos mau’. Do adjectivo ‘bom’: comparativo de superioridade é o sintético ‘melhor’ e o de inferioridade o analítico ‘menos bom’.

Acham confuso? Pois, o português, às vezes, além de confuso, pode ser muito traiçoeiro…

O crucifixo com foice e martelo do presidente Morales

Julho 17, 2015 - Leave a Response

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É a imagem da primeira página do DN de 10 de Julho de 2015. O Papa Francisco olha muito sério para a prenda que lhe oferece o presidente Evo Morales, que logo pela figura toda a gente reconhecerá um Índio da Bolívia dos que ainda escaparam ao genocídio dos Índios pela América toda abaixo… Com o crucifixo, de foice e martelo, quererá ele certamente lembrar ao Papa que, afinal, o Cristianismo começou assim, misturando a cruz com o comunismo da sua vivência original…
– Não?…
Então abram, por favor, os Actos dos Apóstolos, primeiro livro da História da Igreja Cristã, (IV, 34,35):

“Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade.” (Citado de O Socialismo e as Igrejas, Rosa Luxemburgo, 1905).

E eu, ao olhar para a imagem do jornal, nem sei o que mais admirar: se a coragem do presidente Evo, se o olhar, espantado e sério, do Papa Francisco. E sem mais delongas, quero deixar aqui expressa a minha grande admiração por este Papa, cuja coragem que tem mostrado chega e sobra para me convencer da sua grandeza, e o benefício da dúvida que lhe tinha dado no dia da sua eleição. Pois, melhor do que um ‘Bom Papa João XXIV’ que alguns esperariam, sai de lá um Papa Francisco, vejam só, que se está manifestando em cada dia que passa, ‘O Bom e Corajoso Papa Francisco’.

Coragem, Papa Francisco! Crentes ou não crentes, todo o Mundo lhe está dando a bênção que, na Praça de S. Pedro, logo nesse dia, depois da simplicidade do cumprimento – “buona sera!…” – se atreveu a pedir ao povo!…

“As reflexões de Paulo Rangel sobre Jesus e a política ‘são redutoras’ para Jaime Gama”

Junho 23, 2015 - Leave a Response

(Com a devida vénia, de:)
“Ensaio” (Margarida Gomes, Público, 19.06.2015, p. 8, a propósito do livro de Paulo Rangel Jesus e a Política: Reflexões de um Mau Samaritano, escrito e publicado em homenagem ao pai).

“Eurodeputado considera ‘importante perceber que o cristianismo sempre defendeu a separação entre religião e política’.

“Ao contrário do que acontece, por exemplo na Alemanha ou em Inglaterra, onde se discutem todos os temas, em Portugal o debate sobre a religião é pobre e o eurodeputado considera “importante perceber que o Cristianismo sempre defendeu, desde a sua origem, a separação entre a Igreja e o Estado ou entre a religião e o poder político”.

“Toda a sua reflexão teve por base os quatro evangelhos e Jesus Cristo e Jaime Gama, que Rangel convidara para apresentar o livro, não perdeu de vista este aspecto e aproveitou para dizer que “é preciso fazer uma leitura mais abrangente de Jesus”, o que, na sua perspectiva, proporciona uma análise diferente sobre os evangelhos e a sua relação com a política. Não me parece que seja relevante ter má consciência evangélica em termos da política”

Agora, o meu comentário aos ‘desconhecimentos’ (eufemismo de ‘ignorância’…) de alguns políticos. Como é que gente grada (e tão política!), que tinha obrigação de saber História – da Europa, Universal e, daí, do Cristianismo – como é que esta gente revela tanta ignorância, sobretudo desta última: a do Cristianismo?! E não sabem (ou fazem de conta que não sabem?) que esta religião, o Cristianismo sim, cruelmente perseguida e martirizada nos três primeiros séculos da era cristã, foi, no final do século III, tornada, por Constantino, a religião oficial do Império, e por ele elevada à Sumidade do Pontificado, revestida da púrpura imperial, na cabeça as mitras e nas mãos o poder político imperial – tudo como os Pontífices do Império – a partir de finais do século III, a Igreja Cristã passou de perseguida a perseguidora e durante uns dezasseis ou dezassete séculos perseguiu, de guerra, de matança ou de fogueira, tudo quanto fosse heresia ou herege, ou contrariação da doutrina definida em concílios sob protecção do Imperador e, depois, dos detentores do poder político, que “lhe” vinha, directamente, de Deus!…

Começando logo, após o concílio niceno-constantinopolitano (não esqueçam: convocado pelo próprio Imperador, não, ainda baptizado. E se calhar nunca o chegou a ser…) – começando logo, dizia eu – com os arianistas do ‘filioque’ desse concílio. Depois, os cátaros (ai os cátaros! Os puros!…). Depois os albigenses! Depois, os luteranos e seus derivados! Todos! Tudo o que fosse heresia ou herege. Por aí adiante, até ao século XVIII. Pelo menos!…

Com que então, meus caros senhores, “o Cristianismo sempre defendeu, desde a sua origem [vejam bem: “sempre, desde a sua origem”!…] a separação entre a Igreja e o Estado ou entre a religião e o poder político”?!

Mas… a História diz-nos, sem rebuços, que, desde Constantino até bem perto do fim do século XVIII, foi exterminar, foi queimar, foi matar!… Que o diga (ainda…) António José da Silva, “O Judeu” – ele, sua mulher e sua mãe – que foram dos últimos a serem queimados no Rossio de Lisboa, em pleno auto-de-fé, pela Santa Inquisição. E Bocage, que, quase no final do séc. XVIII, pouco lhe faltou para o fazerem também arder!…

“São precisos adultos na sala”

Junho 20, 2015 - Leave a Response

Eurogrupo falha e destino da Grécia passa para os líderes da zona euro” (Público, 19.06.2015, grande título a toda a largura da 1ª página).

Cimeira extraordinária de segunda-feira pode ser última oportunidade para evitar falta de pagamento da Grécia ao FMI no fim do mês. Lagarde diz: “são precisos adultos na sala” (subtítulo a toda a largura da mesma 1ª página; destaque, pp. 2 a 4).

Só três questões.

Primeira pergunta: isto quer dizer, Senhora Lagarde, que na reunião do Eurogrupo de ontem não estiveram “adultos na sala”?…

Segunda pergunta: suspeitará a Senhora Lagarde que, na próxima
segunda-feira, não vai haver “adultos na sala”?

Terceira e última: não será isto um insulto aos líderes do Eurogrupo?…
Na minha aldeia, de um grupo em que não há adultos (= gente séria, razoável, justa), diz-se que é uma garotada

“O segundo acto”

Junho 7, 2015 - Leave a Response

Com a devida vénia se transcreve do PÚBLICO a seguinte crónica de Miguel Esteves Cardoso.

“O SEGUNDO ACTO

Daqui a 50 anos, quase todos os opositores do analfabeto Acordo Ortográfico estarão mortos. Em contrapartida, as crianças que este ano, em 2015, começaram a ser ensinadas a escrever tortograficamente, terão 55 anos ou menos. Ou seja: mandarão no país e na língua oficial portuguesa. A jogada repugnante dos acordistas imperialistas – ignorantes e cada vez mais desacompanhados pelas ex-colónias que tentaram recolonizar ortograficamente – terá ganho tanto por manha como por estultícia. As vítimas e os alvos dos conspiradores do AO90 não somos nós: são as criancinhas que não sabem defender-se. Deseducando-as sistematicamente, conseguirão enganá-las facilmente. A ignorância é a inocência. Pensarão, a partir deste ano, que só existe aquela maneira de escrever a língua portuguesa. Os adversários morrerão e predominará a inestética e estúpida ortografia de quem quis unir o “mundo lusófono” através de um Esperanto lusográfico que não tem uma única vontade colectiva ou raiz comum.

Como bilingue anglo-português, incito os jovens portugueses que falam bem inglês (quase todos) a falar português com a exactidão fonética, vinda do bom latim, da língua portuguesa. Eu digo “exacto” e “correcto” como digo “pacto” e “concreto”. Digo “facto” como fact, tal como “pacto” como pact. Falar como se escreve (ou escrevia) é um acto de rebeldia. Ler todas as letras é libertador. Compreender a raiz das palavras é conhecê-las e poder tratá-las por tu. Às armas!” (PÚBLICO, 20.05.2015, p. 45)

Contracapa (um livro da minha estante): “Breve História da Europa” de John Hirst

Abril 21, 2015 - Leave a Response

1.CONTRACAPA.
Em Breve História da Europa, o conceituado historiador John Hirst presenteia-nos com uma fascinante explicação das qualidades que tornaram a Europa única. Mostra-nos que a civilização europeia nasceu de uma improvável mistura de ensinamentos clássicos, cristianismo e cultura dos guerreiros germânicos. Ao longo dos séculos, esta receita instável produziu personagens características – cavaleiros e papas, românticos cultores das tradições populares e revolucionários imitadores de Roma – e a sua decomposição proporcionou a dinâmica da história europeia dos tempos modernos.

Enquanto isso, o povo comum trabalhava a terra, até se tornar o primeiro a beneficiar da prosperidade de uma sociedade urbana industrializada.

BREVE HISTÓRIA DA EUROPA é o relato claro, espirituoso e provocador de uma civilização admirável.

“Um pequeno livro sábio e luminoso.” Sydney Morning Herald

2. (DA) BADANA.
“A civilização europeia é ímpar por ser a única que se impôs ao rosto do mundo. Fê-lo mediante conquista e colonização; mediante o seu poder económico; mediante o poder das suas ideias; e porque tinha coisas que todos os outros queriam. Hoje, todos os países à face da Terra usam as descobertas científicas e as tecnologias por elas geradas, mas a ciência foi uma invenção europeia.”

3.O LIVRO.
“Concebido com graça e economia e no entanto rico em factos, emoção e pormenor, abrangente, provocador e divertido”.. James Button

Prosa fresca, lúcida e evocativa… O equilíbrio de análise e descrição, generalização e abordagem específica é maravilhosamente sustentado.” Wilfred Priest. Australian Book Review

“Fantástico, o livro no seu todo é um desafio intelectual permanente”

4. O AUTOR. JOHN HIRST.
É professor emérito no departamento de História da Universidade La Trobe, em Melbourne, Austrália. Escreveu várias obras de referência, nomeadamente Looking for Australia e Breve História da Europa.

5. MINHA MORAL DA HISTÓRIA.
5.1. Meu comentário acerca do livro. Para quem está a terminar o secundário, ou mesmo antes de o terminar e para universitários ou curiosos amantes da História, trata-se aqui de um pequeno/grande livro imperdível. Logo na capa, a reprodução de uma das muitas pinturas dos mais célebres pintores, que representa o Rapto da Europa, princesa fenícia, que se deixou seduzir por Zeus, disfarçado de touro (vejam como os deuses também são malandros!). Em Creta, onde fundaram a civilização minóica, donde nasceu o mitológico Minotauro. E então seria caso para nos pormos a questão de saber se os fundamentos da Europa são cristãos ou serão, antes disso, bárbaros minóicos, minotauros descendentes de Zeus?!…E esta estrampalhada Europa em que estamos metidos não será antes uma minotáurica Europa, em que imperam esses minotaurozinhos que nos querem comer e desgraçar?!…

(Nota: Esta é a minha colaboração para o último RODILHA. A pedido do director David, aqui vai, pois, a minha última colaboração para a importante criação da Cidália, que o David se prestou a continuar. E continuou muito bem!. Mas, pois claro, continuar indefinidamente, não ia ser conciliável com o seu curso; com as suas outras ocupações e preocupações. Mas quero dizer aqui que li sempre os seus editoriais. E estou certo de que é uma experiência que lhe vai valer muito na vida!)

“Empreendedorismo”!? E então a haplologia?

Abril 21, 2015 - Leave a Response

Citemos:

“Empreendedorismo é uma palavra feia, empreendedorismo público parece uma contradição nos termos” (Vide DN de 18/04/2015, Editorial de André Macedo).

Pois! Quem escreveu isto foi o Senhor André Macedo, director do Diário de Notícias. E escreveu isto, porque, se calhar, ele não aprendeu bem (ou não seguiu bem o estudo da nossa querida Língua! Como agora tanto falante, simples falante ou falante/escrevente; e, ainda por mais, neste caos infernal que uns senhores ignorantes da Língua – vejam só! – querem impor aos escreventes da Língua de Camões! E outros, também ignorantes – tanto e tantos! – permitem, consentem, e, vejam bem! – usam “essa coisa obscena chamada Acordo Ortográfico!” (Vasco Graça Moura – que em paz esteja!). Pobre  Língua! Pobres falantes aprendizes dela! Mas… ainda havemos de impedir essa aberração!… Ai, lá isso havemos!…

Ora vejamos então:

“HAPLOLOGIA – Supressão de uma sílaba semelhante a outra existente na palavra:
saudade – oso > saudadoso > saudoso
bondade – osso > bondadoso > bondoso
idade – oso > idadoso > idoso “
(Gramática citada: Nova Gramática de Português, Cármen Nunes, et al., Didáctica Editora, p. 188, rubrica ‘Alterações Fonéticas’).

Pois é claro que o Senhor falante/escrevente (que eu, aliás, não deixo nunca de ler) tem muita razão quando escreve que “empreendedorismo é uma palavra feia”! Assim como o seria, por exemplo, ‘saudadoso’ ou ‘bondadoso’ ou ‘piedadoso’. Mas todas esta podem tornar-se palavras lindas, se, ao usá-las, nos ativermos às normas que devíamos ter aprendido, e que alguns de nós não aprenderam porque os seus ‘ensinadores’ não os ensinaram!

Mas vamos continuar. Vocês pensam que eu, bom professor de Português que tenho ainda o gosto de ter sido (deixem passar a imodéstia!…), alguma vez uso ‘empreendedorismo’? É claro que não: recorro ao fenómeno normal que as gramáticas (e os gramáticos) permitem (ou obrigam?…). E, se assim procederem, a palavra torna-se bonita. Vejam: empreendorismo. Mas há Mais: ‘Consultadoria’? Não. Consultoria! ‘Computadorização’? Não: Computação (ou, vamos lá, computarização…). E outros exemplos. Mas não vale a pena estarmos aqui a esgotá-los…

Empreendedorismo?! E porque não recorrer à haplologia? ‘Empreendorismo’ pois!

Nota final: Na dúvida se o próprio Camões teria usado as formas haplológicas “cuidoso/cuidosa/cuidosos/cuidosas”, empreendi uma investigação mais profunda e a minha dúvida ficou resolvida. Agora, já sem qualquer dúvida, posso dizer que sim: Camões usou essas formas adjectivais haplológicas. Um só exemplo: basta abrir Os Lusíadas, Canto III, estância 132, v 8: “No futuro castigo não cuidosos”. Procurem outros que os haverá…

POMBAL, 21/04/2015