As palavras, na sua forma, na sua significação e no seu uso, têm muito que se lhes diga; precisam de ser bem definidas antes de serem usadas, seja em monólogo, em diálogo, ou em debate. Quem estudou um pouco de Lógica, devia saber isto e mais coisas.
Vem isto a propósito de Saramago e o seu Caim, da Bíblia e o seu Deus, e a polémica que daí vem. Dizem alguns crentes, a começar pelos que se consideram guardiões da crença e da fé em Deus, que o que escreve Saramago, o que ele diz, é insulto à fé dos crentes (ou aos crentes da fé), confundindo polémica, opinião e insulto. Antes de mais, vamos lá então definir.
Polémica s. f. discussão acesa, controvérsia; debate (Do grego polemike, feminino do adjectivo que deriva do substantivo pólemos que significa guerra).
Insulto s. m. (Do lat medieval insultu). O verbo insultar, do lat. insultare (in+saltare com o afrouxamento do ‘a’ em ‘u’ = saltar sobre, atacar, injuriar).
Opinião s. f. modo de ver pessoal ou subjectivo; parecer emitido sobre um assunto…
(Dos dicionários)
E agora vamos lá ver.
O senhor A diz que isto é assim. O senhor B diz que isto é assado
O senhor A diz que o que diz o senhor B é insulto ao que aquele diz e crê.
E então podemos perguntar. Se o que o senhor B diz de uma coisa é insulto ao senhor A pelo que ele diz dessa coisa, não será também insulto ao senhor B o que diz dessa mesma coisa o senhor A?
Mais concretamente. O senhor A diz que Deus existe. O senhor B diz que deus não existe. O senhor A diz que o senhor B está a insultá-lo ao dizer que Deus não existe.. Então e o senhor A não estará a insultar o senhor B ao dizer que Deus existe? São duas opiniões, contraditórias, subjectivas que, no nosso caso têm, uma e outra, como referência a Bíblia, que o senhor A diz que tem Deus por autor e o senhor B diz que é da autoria de homens e está a ser lógico: não pode ter Deus por autor, porque ele não existe.
Então o melhor será, na base da Democracia e da Lógica, o senhor A e o senhor B, em liberdade de pensamento e expressõo, poderem expressar a sua opinião, sem que alguém possa arrogar-se o direito de ter mais direito de livre expressão do que o outro… Deixem o Caim de Saramago (e o da Bíblia) cumprir o seu destino de uma errância sem limite, como, de resto, lhe está traçado pelo autor da Bíblia, seja ele quem for.
Uma narrativa genial que só me põe um problema: a pontuação. Problema que, em minha modesta opinião, sem afectar o estilo e mesmo decerto a barroca fluidez do discurso, podia ser resolvido pelo próprio Autor… Com duas vantagens: 1) não dificultava, aos alunos de português, a aprendizagem da pontuação normativa, e 2) tornaria o discurso mais claro e assim facilitaria a leitura.
Comentário complementar. Este Caim de Saramago assume notábvel relevo na linha satírica tradicional da nossa literatura. Camões, Vieira ( a quem Saramago tanto deverá felizmente), Eça, o próprio José da Silva o Judeu que foi queimado na fogueira da Inquisição, e da qual Saramago se livrou (pelo menos por enquanto!). E tantos outros, mesmo já no escárnio e maldizer medieval. O próprio Gil Vicente. Mas aquele de que me lembrei logo, ao começar a ler Caim, foi Guerra Junqueiro e a sua A Velhice do Padre Eterno contra a qual se insurgiram os guardiões infalíveis da Verdade/Dogmática. E fizeram constar que o velhinho Poeta morreu com os sacramentos… Tem cuidado Saramago! O que te valerá é que a Anjo da Guarda Pilar não deixará…
Uma narrativa genial que só me põe um problema: a pontuação. Problema que, em minha modesta opinião, sem afectar o estilo e mesmo decerto a barroca fluidez do discurso, podia ser resolvido pelo próprio Autor… Com duas vantagens: 1. Não dificultava, aos alunos de português, a aprendizagem da pontuação normativa; 2. Tornaria o discurso mais claro e assim facilitaria a leitura.