“As dezenas de milhar (sic) de professores”?!

Novembro 20, 2009 - Leave a Response

“As dezenas de milhar (sic) de professores e as centenas de conselhos executivos de escolas que cumpriram a tempo o que a lei lhes impunha não devem assistir com gosto, etc….” ( editorial do DN de 19/11/09, p. 10, “Um governo vergado aos sindicatos”.

Para que o nome numeral milhar estivesse certo, o nome substantivo conselhos deveria estar, também, no singular. E a frase teria de ficar assim: as dezenas de milhar de professores e a centena de conselhos executivos, etc… Mas não. Estaria tudo errado, como está errado milhar. Porquanto, se ‘milhar’ é nome numeral, é flexível em número, como ‘dezena’, como ‘milhão’, como ‘vintena’, como ‘centena’, etc. Se é mais do que um(a), é plural. E todos eles, como nomes substantivais, variam em número. Então se, com ‘milhão’, eu terei de dizer/escrever ‘centenas de milhões’, como é que, com ‘milhar’, poderei escrever ‘centenas ou dezenas de milhar’? Nada disso! A frase correcta será, pois:

“As dezenas de milhares de professores e as centenas de conselhos executivos de escolas que cumpriram a tempo o que a lei lhes impunha não devem assistir com gosto, etc….”

A propósito, vejam-se as rubricas – deste blogue ou do livro Tento na Língua! – que estão fartas de “gritar” esta inaceitável e incompreensível incorrecção.

Pois é. Mas o que era preciso dizer aqui é que esses professores seguiram uma lei que, pelos vistos, contrariava o interesse da multidão de professores que a contestou na rua!

Mais parónimos: extracto/estrato

Novembro 18, 2009 - Leave a Response

Extracto (istratu ou eistratu) /estrato (istratu). O Dicionário da Academia das Ciências (DAC) apresenta estas duas entradas com a respectiva pronúncia, entre parênteses, representada em alfabeto fonético internacional (IPA), o que equivalerá, no nosso alfabeto, a istratu eistratu.

O prefixo ‘extra’ que nos vem do latino extra (pronun.: ecstra), em português pronuncia-se, generalizadamente, ‘eistra’, mas, admite o referido dicionário que se pronuncie também ‘istra’, pelo menos em algumas palavras, como esta – extracto. Não queria eu voltar aqui à polémica da pronúncia coimbrã e da pronúncia lisboeta. Mas a verdade é que, seguindo o uso de Coimbra, aprendi a dizer eistraordinário; outros dirão istraordinário. Aliás, nas palavras da mesma composição, o referido dicionário admite as duas pronúncias. E em todas as palavras com o prefixo ‘extra’, derivadas do latim ou formadas já no vernáculo português, o mesmo dicionário indica para o prefixo, além das duas já referidas, uma terceira forma de o pronunciar, com o ‘e’ aberto. Por exemplo, a palavra extraconjugal (pronun.: eistraconjugal ou estraconjugal) (DAC).

Como eu ouvi, no Jogo da Língua, pronunciar a palavra extracto, teríamos de admitir que há uma quarta maneira de pronunciar o prefixo que eu acho que deveria evitar-se, sem a vogal inicial, seja ‘i’, seja ‘ei’, seja ‘é’; será então: xetratu (Não represento em IPA, pela impossibilidade de reproduzir aqui os seus caracteres). E, pronunciado assim extracto, os dois parónimos do título  passariam a ser, além de parónimos, homófonos.

Aliás, seja pelo princípio do menor esforço, seja porque é moda, ou porque assim aprenderam (não há nada a fazer…), há falantes que pronunciam a palavra excelente assim: xelente. Mas isto já tem a ver com outro prefixo: ‘ex-’. Sobre este assunto, remetem-se os deparantes de acaso ou adrede visitantes para Tento na Língua! – 2, rubrica 151. Xelente, xecional, xessivo, xerto e outros xes… ou – Pobre do prefixo ‘ex-’! O ‘ex-’ que normalmente se pronuncia eis (ou is quando evoluiu em ‘es’, como em ‘escavar’). Assim: ex-aluno (eis-aluno), ex-professor (eis-professor), ex-qualquer-coisa (eis-qualquer-coisa)…

Quanto a estrato (do lat. stratu-), o caso é diferente; não há prefixo, mas a vogal protética ‘e’ que, com o ‘s’ inicial, sugere a ideia de prefixo, e se pronuncia como se fosse ‘i’, o que acontece em outras palavras em que se deu o mesmo fenómeno da prótese do ‘e’, como, p. e., escola ( do lat. schola).

Pronunciar xetratu, nas duas palavras do título, acho que devia ser evitado.

A “mafia” que eu aprendi

Novembro 8, 2009 - Leave a Response

“Mafia ou Máfia?” (Carta ao DN, 3/11/2009, p. 11). O leitor José Correia de Almeida “opta por Mafia dizendo que o título do DN ‘Mafia mata em Gomorra’ está correcto.”

Eu, também leitor do DN, opto por mafia, como aprendi, como sempre tenho usado. Passo a justificar.

Desde que comecei o meu processo de aprendizagem da língua portuguesa, ou seja, desde a barriga da minha mãe e, depois, por aí fora, em todo o meu percurso escolar, desde a primária, na década de 30 até meados da década de 50 – primária, secundário, superior e por aí fora na continuação da aprendizagem da Língua Portuguesa que foi a minha vida – de ensino/aprendizagem. objecto/objectivo que só acabará quando acabar o sujeito que sou eu – sempre aprendi a dizer/escrever mafia, assim, palavra grave sem qualquer acento gráfico. Nunca ouvi/li ninguém no meio escolar, no tempo de discente ou no tempo de docente, dizer/escrever máfia. E foi há poucos anos, acho que já depois de me ter aposentado como professor, ou pouco antes, que comecei a deparar, com alguma insistência, com a grafia e a pronúncia “Máfia”, palavra esdrúxula, com acento, pois.

Depois de ler esta carta no DN, lembrei-me de escrever este texto para postagem neste blogue e dei-me ao trabalho de consultar os dicionários e enciclopédias que tenho aqui à volta da minha mesa de trabalho. Passo a referir todos estes meus “colaboradores” com a respectiva “opinião”. Por ordem da idade, o que não me parece de somenos importância:

Complementar de Augusto Moreno, 1936 – não regista.

Grande Enciclop. Portuguesa e Brasileira (reprodução fac-similada da edição inicial anterior à reforma ortográfica de 1945) – regista Mafia, palavra grave sem acento gráfico.

Enciclopédia VERBO, Edição Século XXI – regista Mafia, palavra grave.

Dicionário da Língua Portuguesa (7 volumes, Sociedade da Língua Portuguesa, coorden. de José Pedro Machado, 1958) – não regista. Assim como, do mesmo autor, o

Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Livros Horizonte, 3ª edição, 1977) – não regista. Mas, ainda do mesmo autor, o

Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesaregista Máfia, tal como o ainda seu

Grande Vocabulário da da Língua Portuguesa (para Sociedade de Língua Portuguesa, Círculo de Leitores, 2001) – regista máfia.

Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, de Morais Silva (5 volumes, Horizonte/Confluência, 8ª edição, 1994) – não regista.

Lello Universal (2 volumes, 1973) – regista Mafia, palavra grave sem qualquer acento gráfico. De notar que, neste dicionário, a palavra Mafia é seguida de um alfa entre parênteses, preocupação indicativa da pronúncia.

Dicionário Prático Ilustrado Lello, edição de 1981 – regista mafia, palavra grave sem qualquer acento gráfico. Como estes dicionários Lello são traduzidos e adaptados dos franceses Larousse, teve decerto alguma influência a correspondente palavra usada na língua francesa e registada nesses dicionários : “Mafia ou Maffia” [sic].

Enciclopédia Diário de Notícias/Dicionário Enciclopédico (distribuído em fascículos de 21.04.1996 a 14.09.1997) – regista mafia, palavra grave sem qualquer acento gráfico.

Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa (Verbo, 2001) – regista máfia , com a indicação da pronúncia em caracteres do alfabeto fonético.

Dicionário Aurélio Século XXI – regista máfia, palavra esdrúxula

Dicionário HOUAÏSS da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores, 2002) – regista máfia, palavra esdrúxula.

Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora, 2003) – regista máfia, indicando a origem: (Do dialecto siciliano mafia, “bazófia”).

Petit Robert e Petit Larousse – registam: ‘mafia ou maffia’ (sic)

Considerações e conclusões sobre mafia / máfia:

1. Diz o senhor José Correia de Almeida, autor da carta, que “opta por Mafia porque a palavra é grave e assim a ‘Mafia mata em Gomorra’ está correcto” (DN 30 Outubro, p. 23). E diz ainda: “A grafia Máfia (…) já por muitos é admitida” (DN, mesma edição, p.7, rodapé).  Além do DN, que também opta por mafia, o que não me surpreende, pois tenho o DN em boa consideração ortográfica e linguística, há pelo menos dois leitores que fazem a mesma opção, a saber: mafia, palavra grave.

2. Pelo meu testemunho “autobiográfico” (ver acima) relativo à palavra mafia/máfia, acho que podemos  concluir que a palavra entrou como neologismo/italianismo na língua portuguesa provavelmente na primeira metade, adiantada, do século XX , como mafia, palavra grave, sem qualquer acento gráfico.

3. Mas, certamente, porque de ‘mafia’ se tratava, ela entrou, muito a medo, (sabe-se lá de que ‘mafia’…), porquanto dicionários importantes da nossa língua pura e simplesmente ignoraram a palavra, que só começa a aparecer, em alguns dicionários apenas, já na segunda metade do século. Esta afirmação, além do meu testemunho pessoal, ganha muita força ao sabermos que as enciclopédias consultadas e dicionários da importância dos “LELLO” assim a registam.

4. Com medo ou sem medo, o neologismo foi usado entre nós, sobretudo nos meios académicos ou escolarizados, no seu registo de palavra grave, até porque, originário do dialecto siciliano, por lá devia e deverá ser usado com a pronúncia siciliana “mafia”, que nos franceses, segundo o testemunho do Petit Larousse e do Petit Robert, também por mim consultados, é “mafia ou maffia”, com a pronúncia assim indicada: [mafja].

5. Também o Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa (Notícias, 47ª edição) se terá entretanto deixado contaminar, optando por máfia (na minha edição). Gostaria eu de saber como está a palavra registada nas primeiras edições…

6. O facto de os dois dicionários brasileiros mais conhecidos e com a autoridade que lhes advém do prestígio dos seus autores registarem máfia, não menoriza o que antes fica dito, pois é sabido que a Língua Portuguesa, no Brasil, tem seguido o seu caminho, ignorando qualquer acordo com a parte lusitana do universo falante do Português.

7. O próprio facto de o meu computador se encarregar de acentuar a palavra, transformando a que eu escrevo grave em esdrúxula, substituindo, sem minha ordem, o “a” não acentuado pelo “á” acentuado, é mais uma prova de que a “máfia” está a ser imposta, pelos meios informáticos ao seu alcance, como esse tal acordo ortográfico que também, absurdamente,  nos querem impor, coûte que coûte… Critérios mercantilistas ou neocolonialistas ao invés?… Não é?

8. Mas o autor da carta começa por dizer que “há que uniformizar em termos de redacção/escrita [quereria ele dizer em termos de ortografia]“. Pois é. Enquanto os falantes do francês têm como garante a Académie Française, e os falantes do castelhano a Academia Real, os falantes do português têm uma coisa que se chama Academia das Ciências de Lisboa que mandou elaborar uma coisa a que chamaram Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, onde essa nossa língua é tão maltratada. E assim anda ela sem rei nem roque por esse mundo lusófono, enquanto o “brasileiro” [le brésilien, dizem os franceses] se vai orientando, por Lá, pela Academia Brasileira de Letras. Por Lá e… por Cá…

“Se eu puser: com ’s’ ou com ‘z’?”

Novembro 8, 2009 - Leave a Response

Foi o que alguém me perguntou há poucos dias.

Com ‘s’ sem dúvida. E a razão é, também sem dúvida, etimológica. Assim o decidiram os reformadores da reforma ortográfica de 1945, que é, ainda, a que vigora, felizmente. Oxalá a porta não se abra ao tal “acordo ortográfico”, que ronda por aí tão desacordado!

E então, com ‘s’ porquê?

Ora vamos lá ver. Na conjugação verbal, há uns tantos tempos verbais que derivam do chamado tema do perfeito. E esse jeito já nos vem do latim. São eles: futuro imperfeito do conjuntivo – se eu puser; pret. imperfeito do conjuntivo – se eu pusesse; pret. mais-que-perfeito do indicativo – eu pusera. O negrito realça o radical (o tema) do perfeito (pretérito perfeito do indicativo) – pus. E esta regra é claramente válida para todos os verbos em geral, embora, para alguns verbos, como é o caso de pôr e outros, se torne mais clara a achega desta teoria para ser correcta a nossa ortografia. E o que tem isto a ver com a etimologia? Tem muito, como vamos verificar. Veja-se a forma verbal latina da qual deriva a correspondente portuguesa do verbo pôr:

Pretérito perfeito (do pretérito perfeito latino): posui > pus, posuisti > puseste, posuit > pôs, posuimus > pusemos, posuistis > pusestes, posuerunt > puseram.

Futuro imperfeito do conjuntivo ( do futuro perfeito latino): posuero > puser, posueris > puseres, posuerit > puser, posuerimus > pusermos, posueritis > puserdes, posuerint > puserem.

Imperfeito do conjuntivo (do m.-que-perf. do conjuntivo latino): se eu pusesse < posuissem, se tu pusesses < posuisses, se ele pusesse < posuisset, se nós puséssemos < posuissemus, se vós pusésseis < posuissetis, se eles pusessem < posuissent.

Mais-que-perfeito simples (do m.-que-perf. do ind. latino): posueram > eu pusera, posueras > tu puseras, posuerat > ele pusera, posueramus > puséramos, posueratis > puséreis, posuerant > puseram.

E, como se pode ver, lá está o ‘s’ do tema em todas as pessoas, no latino e no português.

Agora em outros verbos (só com a primeira pessoa): eu quis < quaesii, se eu quiser < quaesiero, eu quisera < quaesieram; eu fiz < feci (o ‘ci’ latino deu ‘z’), se eu fizer < fecero; se eu fizesse < fecissem; eu fizera < feceram. Do verbo dizer. O perfeito português  é disse que deriva do latino dixi, então: se eu disser < dixero;; se eu dissesse < dixissem; eu dissera < dixeram.

E, já agora, uma curiosidade que põe uma questão fonético-etimológica. O verbo trazer cujo étimo latino é trahere: traxi < trouxe; traxero < trouxer;  traxissem < trouxessetraxeram < trouxera. Só para dar corda à curiosidade, veja–se o processo evolutivo de ‘trouxe’: traxi>trauxi>trouxe (Ditongação e a vulgar substituição do ditongo ‘au’ pelo ditongo ‘ou’).

Mas a tal questão é esta: se dixi deu disse, porque é que traxi, o mesmo fonema, no primeiro escreve-se com dois ‘ss´ e no segundo com ‘x’? Pergunte-se aos eruditos que assim convencionaram a ortografia.

“…eu sou dos que acredito…”? Não!

Novembro 4, 2009 - Leave a Response

Na entrevista ‘Michael Moore, O bom americano’, texto de Rui Pedro Tendinha, Notícias Magazine 01/Nov/2009, p. 82, 3ª coluna:

“Este filme [Capitalismo – Uma história de amor] já tem mais de duas horas, cinco minutos mais, já com os créditos finais, e eu sou dos que acredito [sic] que nenhum filme deva ter mais do que duas horas.”

Perversão sintáctica grassando muito por aí, de mais; saída de plumas muito escolarizadas, mesmo algumas superiormente escolarizadas. Ora vamos analisar essa sintaxe:

… dos que acredito

Oração relativa ‘que acredito

Predicado/verbo – acredito está errado: deve ser ‘acreditam’.

Sujeito – ‘que’ com o antecedente ‘os’ de ‘dos’.

Numa relativa com ‘que’ por sujeito, o verbo tem de concordar com o antecedente do ‘que’: neste caso, o pronome demonstrativo ‘os’. Plural, logo o verbo tem de estar no plural (3ª pessoa).

‘Eu sou dos que acredito’?  Não! ‘Eu sou dos que acreditam’

Vamos agora fazer aqui umas variantes. Imaginemos a frase com quatro relativas ou mais que fossem::

Sou eu que acredito; sou eu quem acredita, sou um que acredita, um dos que acreditam.

Na primeira relativa – que acredito – o verbo vai para a 1ª pessoa do singular, porque o sujeito é ‘que’ com o antecedente ‘eu’; na segunda – quem acredita – o sujeito é o relativo ‘quem’, que leva sempre o verbo para a 3ª  pessoa do singular; na terceira – ‘que acredita’ – o verbo vai para a 3ª pessoa do singular, porque o antecedente do relativo é o pronome indefinido ‘um; finalmente na quarta – que acreditam – o verbo vai para a 3ª pessoa do plural, porque o sujeito ‘que’ tem como antecedente o pronome demonstrativo ‘os’. E já agora…, se sois vós que acreditais em mim, ou se sois vós quem em mim acredita, por mim, ficarei satisfeito.

“Sobre Caim” de Pilar

Novembro 4, 2009 - Leave a Response

O que aqui se disse relativo à crónica de Vasco Graça Moura (ensaio mais histórico), pode voltar a dizer-se agora, depois de se ter lido Sobre Caim, de Pilar del Rio (mais antropológico) (DN 29/10/2009, p. 50). Termina assim:

“Sigamos então por caminhos marcados por lendas, com interpretações simbólicas ou não, mas tenhamos ao menos a decência de atribuir-nos a sua autoria: a de havermos criado a divindade e toda a dor e sacrifício que os deuses supostamente impuseram ao mundo. À imagem e semelhança do ser humano”.

É assim. Quando alguém passa da crença em Deus para a descrença, é quando a sua cabeça virou ao contrário o versículo da Bíblia relativo à criação do homem e, com convicção, o adopta assim virado : “ …e diz [Deus]: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gen. 1, 26). Lá dizia, há pouco tempo ainda, em Vila da Feira, o grande escritor Salman Rushdie: “Deus é o maior erro da espécie humana”. E então não será mesmo?

Mas vejam só se pode falar de coerência o cronista habitual do DN de Domingo, penúltima página (01/11/2009). À afirmação de Pilar “os chamados seres racionais estão loucos, por isso talvez não mereçam a existência”, ele responde: “eu não chegaria a tão dramática conclusão, mas é notável ver uma comunista de sempre [sic] falar com tamanha franqueza do credo que professou e que, contra toda a coerência, continua a professar [sic].”

A crónica de Vasco Graça Moura

Outubro 29, 2009 - Leave a Response

Ninguém que esteja de algum modo interessado na polémica Caim/Bíblia/Deus/ Saramago/Igreja deverá dar por terminada a sua tarefa de participar ou simplesmente acompanhar sem ler a crónica de Vasco Graça Moura (VGM) Melhor crer do que ler? (DN, 28/10/2009, p. 54). Ali está tudo, tratado em género ensaio histórico, tudo o que Saramago disse, primeiro em género ficção (sátira ou “escárnio e maldizer”?) e, depois em debate, em entrevista, em conferência.

Quem leu ontem a crónica de Miguel Tavares sobre o assunto, e hoje a de VGM!…

Heresia e blasfémia

Outubro 29, 2009 - Leave a Response

Heresia (L. haeresis >Gr.haeresis) f. Doutrina contrária aos dogmas da Igreja; contra-senso; acto ou palavra ofensiva da religião.

Blasfémia ( L.>Gr. Blaspemia) Palavras ultrajantes da divindade ou da religião; ultraje dirigido contra pessoa ou coisa respeitável; dito absurdo.

(Dos dicionários)

Começo por dizer que geralmente leio e aprecio as crónicas de João Miguel Tavares. Mas esta As afirmações religiosas do ateu José Saramago (DN, 27/OUT/2009, p. 9) mais me parece uma série de excertos da homilia que o autor terá ouvido no último domingo. Que grande confusão, meu Deus! Confusão semântica, confusão teológica, confusão filosófica. Então digam-me: um ateu, por ser ateu, não pode falar de ética? Não pode analisar um texto do ponto de vista da ética? Pois! Sócrates (nada de confusões aqui!), quando estava a virar a juventude grega contra os deuses do Olimpo, que pelos vistos estavam acima de toda a ética humana, foi obrigado a tomar  a cicuta letal. Ele, que “só sabia que nada sabia”! Vejam:

“… o escritor português defendeu ‘o direito à heresia’. Carreira das Neves respondeu, e muito bem, que Saramago não pode ser herético se não acredita em Deus. Tivesse o nosso Prémio Nobel da Literatura mais cuidado com as palavras e perceberia que aquilo que está a defender é, isso sim, o direito à blasfémia.”

E mais adiante:

“… uma série de gestos muito atinados mas que passam ao lado do essencial: um ateu pode perfeitamente dizer que a Bíblia é um manual de má literatura; não pode é dizer que é um manual de maus costumes”.

E porque não? E agora esta barbaridade:

“Só quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas”.

Esta, é de pasmar! Ainda para mais saída da pena de um escriba jornalista! Pena que eu tantas vezes tenho visto passar com o bico sobre a ética de figuras políticas e não só! Poderá um jornalista fazê-lo: ler um texto e analisá-lo do ponto de vista ético? E porque não um escritor? E porque não um ateu?

E agora vejam só mais esta:

“… A maior parte dos cristãos dirá que a Bíblia é um Manual de bons costumes. Mas seja para dizer que os costumes são bons, seja para dizer que os costumes são maus, é preciso acreditar no ‘poder ético’ daquele livro, ou seja, na transformação da palavra em acção. Ora, um ateu necessariamente não acredita nessa transformação, e por isso tem de olhar para a Bíblia como olha para outro livro qualquer: estética e nada mais.”

Nada mais porquê? Quer isto dizer que um crente terá de deixar de se preocupar com a ética quando deixar de crer em Deus? Não haverá aqui uma grande confusão de ética com teologia moral?

Jogo da Língua polémico

Outubro 29, 2009 - Leave a Response

Fiquei com pena daquele concorrente ao Jogo da Língua (Antena 1, 14:30 h) que ligava da linda terra das alheiras, Mirandela. Foi-lhe posta a questão assim: “Qual é o plural de decreto-lei?” E ele disse logo: “Decretos-leis”. Mas em seguida o problema foi-lhe proposto assim: “Tem de escolher uma destas duas: decretos-leis ou decretos-lei?” E o homem, muito baralhado, pensou pensou e disse: “bom, decretos-lei”… Veio a senhora doutora e explicou: decretos-leis, porque não sei quê não sei quantos, porque era assim mesmo… E o homenzinho ficou sem o livro. E eu sou capaz de dizer: em um “jogo da língua” assim, questões polémicas não se devem pôr! Polémica, esta? Sim.

Embora o tal Dicionário da Academia diga que o plural de decreto-lei é decretos-leis, e mais nada, há quem, com muita autoridade, diga que esse nome substantivo composto pode ter como plural: decretos-lei ou decretos-leis ou vice-versa (Cf. Dicionário Aurélio e Dicionário Houaiss). Mas a polémica não fica por aqui. A Nova  Gramática do Português Contemporâneo, de  Celso Cunha e Lindley Cintra (Sá da Costa, 3.ª ed., p. 188) diz: “c) também só o primeiro toma a forma de plural quando o segundo termo da composição é um substantivo que funciona como determinante específico: navios-escola…”, opinião seguida por gramáticas adoptadas nas escolas. Ora se decreto é um diploma com força de lei emanado do Governo, e lei é um diploma legislativo emanado do órgão propriamente legislador, no composto decreto-lei, o segundo elemento bem pode(deve) ser considerado um determinante específico. E ainda, conforme o Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa, Notícias, 47ª edição, p. 56:

“- Nos compostos formados por dois nomes (normalmente ligados por hífen) em que o segundo elemento tem uma função adjectival só o primeiro elemento vai para o plural: escolas-modelo, expressões-chave, projectos-piloto, etc.”

Neste “etc.” poderíamos acrescentar, entre outros, os nossos “decretos-lei”.

Mas o Jogo da Língua não acaba aqui. Há dois dias, a pergunta era: “deve-se escrever/dizer precaridade ou precariedade?” A senhora doutora explicou: precariedade, porque é assim nos nomes deste tipo derivados de adjectivos terminados em –ário. Está bem. Mas eu acho que a senhora doutora podia muito bem alargar a explicação, porque esta não abrange substantivos do mesmo tipo, como ansiedade (de ânsia), piedade (de pio), sobriedade (de sóbrio), sociedade (de sócio), seriedade (de sério); e decerto alguns outros que não derivam de adjectivos terminados em –ário, mas simplesmente em –io (ou –ia). Há, ainda, o caso de saciedade que nos vem do latino satietate, derivado não de adjectivo ou substantivo, mas sim de advérbio – satius – comparativo de superioridade de satis. Saciedade é, pois, o estado de qualquer coisa que é “mais que bastante”, ou seja, o estado de saturação.

Até porque, de minha experiência, não posso considerar o Dicionário da Academia o “papa” dos dicionários da língua portuguesa, muito ao contrário.

Adenda à postagem “A polémica e o insulto”

Outubro 24, 2009 - Leave a Response

Tendo em vista o penúltimo parágrafo, relativo à pontuação, achei oportuno acrescentar algo. O problema da pontuação, remete para aquilo a que os linguistas chamam sinais diacríticos e volto a dizer que me parece que o seu uso mais normativo, em Caim como em outras grandes obras anteriores do Autor (v.g. O Evangelho), não só não prejudicariam o estilo, como, ainda, aumentariam a clareza do discurso e, em consequência, facilitariam a leitura. Lendo Caim, não raras vezes me aconteceu parar para ver se  determinada vírgula era interrogativa ou não. E reparei que em muitos casos, o narrador vê-se obrigado, para confirmar a interrogação, usar a intercalada “respondeu”, “perguntou” e outras. Estaria também resolvido o problema didáctico do ensino/aprendizagem, quando, na escola, se recorre a textos saramaguianos.  Mesmo o uso da maiúscula em nomes próprios. Mas, repito,  a genialidade da narrativa lá está sempre, seja com o desvio diacrítico original ou fosse com a pontuação de uso universal.