Porquê açoriano com i?

Fevereiro 4, 2010 - Deixe uma Resposta

Há tanto tempo que eu não ouvia o famoso Jogo da Língua, na Antena 1, à hora da sesta! Hoje, 03/02/10, não sei por que artes do diabo, acordei precisamente a tempo de ouvir a pergunta e a resposta errada, e por fim a explicação da senhora professora responsável pela ortodoxia linguística. Pergunta: “açoriano escreve-se com ‘e’ ou com ‘i’”?  Resposta do concorrente: “com ‘e’”. Errado. Vem a senhora professora e diz: “com ‘i’ , porque o ‘i’ faz parte do sufixo, como também em canadiano”. E pronto.

Fiquei a conversar com os meus botões: mas por que raio acordei eu neste preciso momento? E dei-me ao trabalho de consultar uma porção de boas gramáticas que tenho aqui à mão, para confirmar a minha quase certeza. O  ‘i’ de açoriano faz parte do sufixo? Então sufixo de naturalidade, não é  -ano, sem ‘i’? Romano, napolitano, germano, bragançano, tibetano, transtagano, ribatejano, louletano, castelhano, torrejano, canadiano, açoriano? E quais outros? Na opinião unânine dos compêndios de gramática que tenho à mão, como sufixos de proveniência, origem, pertença, ou então, como outros dizem, gentílicos, toponímicos, de origem, além de -ano, temos: -ão (que é a forma popular de -ano), -eno, -ense, -ês, e mais um ou outro com a ideia de origem, mas -iano é que nenhum regista. E haverá razão para tal, se considerarmos que o ‘i’ de canadiano e açoriano e algum mais, assim como o ‘j’ de torrejano,  não pertence ao sufixo , mas está lá como vogal ou consoante de ligação do sufixo com o tema. Isto, para usar a terminologia das gramáticas modernas, porque as antigas chamavam a esse elemento infixo.

Mas voltemos ao Jogo. Ao ouvir o concorrente dizer que açoriano se escreve com ‘e’, tive pena dele. E porquê? Ora, porque açoreano escreveu-se com ‘e’, pelo menos, desde a reforma ortográfica de 1911, levada a cabo por incumbência da jovem República, por gente do gabarito de Carolina Michaelis, Gonçalves Viana e outros. Pois bem, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Gonçalves Viana, 2ª edição, 1913, posso ver açoreano com ‘e’. No Dicionário Complementar da Língua Portuguesa,  de Augusto Moreno, 1936 , lá está açoreano. E mais: na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que comprei há uns 15 anos (mas sabemos que aqueles volumes foram fotocopiados da edição anterior a 1945) lá vem açoreano e cognatas com ‘e’. Até O Açoreano Oriental, “o mais antigo jornal português fundado em 1835 (18 de Abril)”. E ainda hei-de saber se alteraram a ortografia…

E tudo isto quer dizer o quê? Quer dizer que essas palavras – açoreano, açoreanista – se escreveram com ‘e’ obrigatoriamente até à reforma de 1945, cujos fautores entenderam alterar a ortografia: em vez de ‘e’ passou a ter de se escrever com ‘i’. Sim, porque a ortografia obedece a uma lei. Quais as razões da alteração? – pode-se perguntar. Para responder a essa pergunta teríamos de desenvolver várias pesquisas, e nem vale a pena estarmos a gastar espaço com algumas achegas sobre o assunto que poderíamos aventar. Mas que, segundo a reforma de 45, é obrigatório escrever com ‘i’, é. Acrescente-se só, por curiosidade, mas não sem alguma pertinência, que o Houaiss, na etimologia da palavra açoriano, regista: açor+ i +ano. Estão vocês a ver, o tal sufixo -ano ligado ao tema pelo infixo (se preferirem, pela vogal de ligação) ‘i’. E, vá lá, o Dicionário da Academia das Ciências explica assim a etimologia: Açores + suf. -ano, ignorando o infixo ou vogal de ligação que seja.

E só mais esta. Estão a ver que se este Jogo da Língua se passasse na primeira metade do século XX, o concorrente tinha hoje mais um livro. Passou-se, porém, na primeira metade do século XXI, e o concorrente não só perdeu, como ficou a ver navios no Alto de Santa Catarina depois da explicação da senhora professora.

Falar com maiúsculas?!

Fevereiro 2, 2010 - Deixe uma Resposta

Era na madrugada de segunda para terça (19/01/09). Não retive o nome do programa da Antena 1, em que o convidado era Válter Hugo Mãe (perdão, válter hugo mãe, ou se calhar melhor: valter hugo mãe). Às tantas, dou com os meus ouvidos a ouvirem, da boca do convidado, esta bárbara sentença: “Não se fala com maiúsculas”, acho que para justificar a sua escrita só com minúsculas, a começar pelo próprio nome, e outras barbaridades mais prosódicas, que têm a ver com a pontuação, mais que saramaguiana.

Com que então, não se fala com maiúsculas? O que quererá dizer que se fala, sim, mas com minúsculas. Isto para justificar, pois, a sua escrita só com minúsculas, “desnormada”, não só no formato das letras – minúscula/maiúscula – como também no seu uso “descriterioso” dos sinais diacríticos. Na poesia, eu até estou em aceitar. Porque, se há o verso e os espaços, não fazem muita falta a maiúscula e os diacríticos, à excepção, está claro, dos acentos (se o senhor Hugo se lembra de começar a escrever sem os acentos da norma, não deixaria de estar  a ser coerente com o seu estilo subversivo, caótico, anárquico, de inventor, para a escrita, de excentricidades gratuitas de brincalhão-mais-que-epígono de Saramago).

O que me admira um pouco (ou talvez muito) é a demagogia crítica em que se deixam embarcar Jotas Eles e quejandos seus apaniguados…

Mas, voltando à vaca fria das maiúsculas, conviria perguntar, ao senhor Hugo (perdão, senhor hugo),  ele que, pelos vistos só falará com minúsculas…,  se ele não sabia (um inventor de tal facúndia devia saber) – se ele não sabe que não se fala com letras – maiúsculas ou minúsculas. Fala-se com sons, com fonemas, que não têm nada que ser minúsculos ou maiúsculos. Isso tem a ver, sim,  com o escrito, com o gráfico, com  os grafemas, com as letras.  E, para essas, há normas que, em texto discursivo, são de obrigação colectiva. Vejam só: se cada escritor resolvesse agora usar na sua escrita o seu sistema diacrítico privado, o que é que teríamos nas livrarias? Uma Babel da escrita? Uma bagunça “desuniformizada”?

Não seria caso de se propor ao senhor hugo que, dada a expansão dos seus livros pelo mundo, nomeadamente “na Líbia e na Tunísia”, como ele disse no tal programa, – propor-lhe que fomente a invenção de um teclado que permita, por exemplo, escrever as letras de pernas para o ar?…

Queria dizer ao Senhor Hugo Mãe (perdão, senhor hugo mãe) que não auguro futuro à sua brincadeira, incluindo a sua esquisita diacrítica.

Mas também não fique por dizer que a excentricidade, a extravagância, o exibicionismo da escrita anárquica também deve muito à guarida que lhe é dada na comunicação social, e ainda mais na comunicação especificamente literária em jornais como o JL. Guarida “literária”? “Pedagógica”? Ou simplesmente demagógica?

“Logo mais” [“tarde mais”]

Janeiro 28, 2010 - Deixe uma Resposta

“Há poucos dias, na TSF, uma dama dizia muito espevitada que ‘logo mais’ ia acontecer não sei o quê… Não foi a primeira vez que ouvi essa aberração revoltante.” (DN 27/JAN/2010, artigo de Vasco Graça Moura, p. 70)

Na minha leitura do DN, se há textos que não deixo escapar são os de Vasco Graça Moura (VGM), que, devo dizer antes de mais nada, tenho em elevada conta, como escritor, como poeta, como tradutor literário. E neste processo do Acordo/Desacordo, que leva já uns largos anos, considero VGM o maior e melhor defensor da Língua Portuguesa, pelo menos no que respeita ao espaço sincrónico de Portugal. Isto, mesmo que ele continue a afirmar e a reiterar que não é linguista. Deixe-me dizer-lhe, Companheiro Maior da luta contra o Acordo, que não é linguista só quem possa ostentar um grande canudo universitário na matéria. Quantos bons linguistas se revelaram tais, sendo a sua outra área disciplinar do saber. Seria caso para perguntarmos se é o seu canudo de Direito que lhe dá o direito e o proveito de se apresentar como bom escritor, bom poeta, bom tradutor. Mesmo tendo em conta o que tem escrito sobre a Língua e o Acordo, acompanhado de grandes linguistas que estão com ele e o apoiam, já lhe dão de sobejo esse direito. Fique bem claro que é este o meu conceito a respeito de VGM. E nem o ‘desacordo’ que em seguida vou referir de jeito nenhum minimiza o encómio que aqui lhe deixo.

É o caso do “logo mais” constante do primeiro parágrafo do seu artigo “A paisagem, entre minhocas e King-Kong”: “E não foi a primeira vez que ouviu essa aberração revoltante”. Refere-se portanto à expressão “logo mais”. Fiquei bastante surpreendido com o primeiro parágrafo referido.

Então não será de uso assaz corrente, “logo mais”?

Logo(2), adv. ( do lat. loco, sem demora alguma, sem detença, imediatamente || Dentro em pouco, daqui a espaço de tempo maior ou menor […] || Mais logo ou logo mais, passado algum tempo, um tanto ou quanto mais tarde […]” (Dicionário da Língua Portuguesa, 7 volumes, Sociedade de Língua Portuguesa, Coord. De José Pedro Machado, 1964)

Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira encontramos o seguinte:

Logo(2) adv. […] Mais logo ou logo mais, passado algum tempo, um tanto ou quanto mais tarde: logo mais lhe dou a resposta […].

Além da enciclopédia e  do dicionário antes citados, a locução adverbial logo mais pode ver-se ainda, com o mesmo significado, nos seguintes dicionários que tenho aqui à mão: Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa; Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa; Dicionário Aurélio Século XXI.

Logo, com a devida vénia ao meu admirado VGM, penso que  a expressão ouvida na TSF (e não me surpreende que não tenha sido a primeira vez) não está incorrecta. Com fundamento na minha experiência de falante estudioso e ensinante da língua, e apoiado nos dicionários citados, não acho que o uso da locução adverbial “logo mais” ou “mais logo”  seja assim aberração tão revoltante ou simplesmente revoltante…

E, já agora, como tudo isto deriva de uma tal “dama espevitada” da TSF, achei que  devia acrescentar aqui só mais uma notinha. É que eu também embirro solenemente com locutoras  de rádio “espevitadas”. E então, gritonas, não aguento mesmo.

Melhor, pior (advérbios e adjectivos)

Janeiro 24, 2010 - Deixe uma Resposta

Na continuação da postagem “Melhor ou mais bem, pior ou mais mal?”, achei que  a explicação não ficará completa sem se acrescentar o seguinte.

Melhor, e pior, além de comparativo de superioridade dos advérbios bem e mal, podem ser também comparativo de superioridade dos adjectivos correspondentes bom e mau. São, pois, homónimos nessas duas funções. E convém não confundir as coisas. Como adjectivos, não têm alternativa com ‘mais bem’ e ‘mais mal’. Isso só acontece na sua função de advérbios e, como se disse, antes do particípio passado (regular ou irregular) dos verbos: mais bem construído; mais bem feito; mais mal aceite.

Como adjectivos, só se pode usar a forma simples  – melhor, pior. “Este acepipe é melhor do que o outro. O outro é pior, é muito pior”. Aqui, mais bom e mais mau não é correcto. Coisa curiosa: muito pior, muito melhor são uma espécie de superlativo do comparativo: “este é muito melhor do que o outro”. Isto não vem nas gramáticas, embora se use também com os outros adjectivos, na forma muito mais: “esta torre é muito mais alta do que aquela”.

Melhor ou mais bem, pior ou mais mal?

Janeiro 21, 2010 - Deixe uma Resposta

(Descansem, vou deixar em paz o Jogo da Língua. Acho que é melhor deixar-me adormecer nos braços de Morfeu, na minha quotidiana sestinha. No entanto, não posso deixar de dizer que é de lá que venho, ainda hoje).

Melhor ou mais bem? Pior ou mais mal? Outra vez esta gralha a grasnar, este erro a grassar. Um mau uso que alastra por aí, e cada vez mais entre gente altamente escolarizada. E é uma questão tão simples de memorizar. Querem ver?

Trata-se de dois advérbios: bem e mal. Advérbios que, integrados nas classes de palavras inflexivas ou invartáveis, são flexivas, estas duas, quanto a grau. Muitos advérbios variam em grau (não em género, não em número, sim em grau). Vejamos estes:

BEM
Grau positivo ou normal: bem; grau comparativo de superioridade: melhor ou mais bem; grau superlativo absoluto: muito bem.

MAL
Grau positivo ou normal: mal; grau comparativo de superioridade: pior ou mais mal (não se seja tentado a pensar que é o grau superlativo de inferioridade, simplesmente por ser antónimo do anterior – bem); superlativo absoluto: muito mal.

E então quando é que é melhor ou mais bem, pior ou mais mal?

Normalmente é melhor ou pior: “este casaco fica-te bem, mas aquele fica-te melhor; ou seja, “este fica-te pior do que aquele.

Quando, porém, estes dois advérbios – bem, mal – se usam afectando (os advérbios afectam outras palavras e até por isso mesmo é que se chamam “advérbios”) um particípio verbal, assumem normativamente (ou seja, obrigatoriamente) a forma ‘mais bem’ e ‘mais mal’. Note-se: antes de qualquer particípio verbal (passado), quer se trate da forma regular ou irregular do particípio :

“Hoje a lição foi mais bem preparada“; “a de ontem fora mais mal preparada“. “Este desenho está mais bem acabado do que aquele”; aquele, é claro, está mais mal acabado, mais mal feito“.

Mais exemplos:

“Este peixe está melhor cozido do que aquele? Não, este peixe está mais bem cozido do que aquele”. “Este conselho foi melhor aceite do que aquele? Não, este conselho foi mais bem aceite do que aquele”. “Aquelas pessoas são melhor instruídas do que as outras? Não, aquelas pessoas são mais bem instruídas do que as outras”. Etc., etc. Não esqueçam: antes de particípio, sempre, mas sempre: mais bem, mais mal.

Remete-se o deparante de acaso ou adrede visitante, antes de mais, para outras  postagens deste blogue sobre o assunto (o erro grassa  por aí de tal forma, que me obrigam, aqui, a não ter mãos a medir…), e, já agora, para as rubricas do(s) livro(s) atinentes ao assunto,  nomeadamente: 44 in Tento na Língua! – 1, e  350 e 4 in Tento na Língua! – 3.

“Uma das culturas […] que construiu”?

Janeiro 21, 2010 - Uma Resposta

Os colonos brancos fugiram para Nova Orleães e introduziram uma das culturas, a do algodão, que construiu a sociedade americana” (DN 20JAN/2010, última página, “Um ponto é tudo” de Ferreira Fernandes)

Caro Ferreira Fernandes, pelo prazer e proveito que sempre tiro da sua leitura, atrevo-me a fazer-lhe uma cobrança, hoje. Já não é a primeira. As anteriores foram a nível de ideias, contestando ou confirmando (vide postagens “O Nazismo de hoje” e “Pior tragédia da ONU”). Desta feita, é uma contestação minha de sintaxe sua; nível gramatical, pois, se me permite. Está realçada na citação acima: “… uma das culturas, a do algodão, que construiu a sociedade americana”. Vamos só à oração relativa:

(uma das culturas) que construiu a sociedade americana

sujeito – ‘que’ relativo a ‘culturas’ (antecedente do ‘que’);

predicado – construiu – que (as quais culturas) construiu? Não:  que (as quais culturas) construíram;

complemento directo – ‘a sociedade americana’.

Já agora, podemos classificar também ‘a do algodão’ que é nem mais nem menos do que um aposto ao pronome ‘uma’ no início da frase, que por sua vez é complemento directo de ‘introduziram’.

E assim se demonstra que um grande jornalista, da minha admiração quanto à linguagem jornalística e ao domínio da língua, também se pode deixar contaminar pelas gralhas que por aí grasnam…

Mas não fiquemos por aqui. Podíamos dar uma volta à sintaxe de modo que o verbo pudesse ficar no singular. Assim: “… e introduziram uma cultura, a do algodão, que construiu (que ajudou a construir) a sociedade americana”.

Com um abraço deste seu leitor.

“…uma das personalidades que está envolvido…”

Janeiro 19, 2010 - Deixe uma Resposta

Manuel Correia Fernandes, arquitecto, e uma das personalidades que está envolvido nesta iniciativa [candidatura de Manuel Alegre], refere ao DN que a ida de Manuel Alegre ao almoço com que o MIC do Porto […] (DN 18/01/2010, Política, p. 11, primeira coluna, 2º parágrafo)

Com que  então, Manuel é uma das personalidades que está envolvido? Tanta asneira em tão pouco discurso! Nem era preciso explicar nada, tão óbvias são as incorrecções:

que está” em vez de “que estão. É ou não é óbvio? Então o “que” relativo, sujeito, não tem como antecedente “as personalidades”?

envolvido em vez de envolvidas. Não é também óbvio? Não são “as personalidades” que estão envolvidas?

“Jogo da Língua” em três Notas e uma Observação

Janeiro 19, 2010 - Deixe uma Resposta

Nota 1: Era para recorrer ao Torrinha, mas preferi este Lexicon Latino-Portuguez, [ vejam bem, ACTUALISADO, tudo sic] que comprei um dia no alfarrabista, já sem dados identificativos, nem autor, nem data , nem nada:

“pejor, us, gen. óris [sic] (comp. de malus), mais ruim, peior [sic]; mais mau; menos bom; mais perverso; mais vicioso; mais infeliz; que é de condição inferior; mais doente. Vid. malus”.

E preferi este, porque, além de pejor, étimo do nosso pior, regista o verbo pejorare que, por sua vez, é étimo do nosso pejorar, coisa que o Torrinha não faz.

Mais um Jogo da Língua (16/01/09, 14:40), mais uma pergunta: “pejorativo, prejorativo ou perjorativo?” Resposta não acertada. A senhora doutora esclarece: “Pejorativo. Embora haja tendência para” não sei quê, “o correcto é pejorativo, porque deriva de pejorar”. E pronto. Nem uma referência a que o primeiro elemento desse grupo de palavras – pejorativo, pejorativamente, pejorar – não é nenhum prefixo per nem pre, mas sim o comparativo latino pejor, comparativo de malus-mala-malum, do qual deriva directamente o nosso pior que significa, simplesmente, “mais mau” , como o latino. Não se trata, pois, de prefixo pre nem per nem pe. Se de prefixo se pode falar é o prefixo adjectival pejor, comparativo do tal adjectivo latino. E não seria nada de mais que um concorrente, mesmo com pouca escolaridade, nunca mais se esquecesse do pejor (experimente-se a pronunciar, aberto ou fechado,  o ‘e’ de pejor).

Nota 2: Para onde foi a minha querida locutora Filomena Crespo?  Notem que o adjectivo “querida”, aqui, não tem significado pejorativo nenhum. Se algo lhe quero, é devido tão somente ao seu desempenho profissional. E volto a dizer: a melhor locutora da Antena 1 que me era dado ouvir, já não é. Será que a esta minha avaliação de ouvinte, elogiosa, foi dado algum sentido pejorativo? Não quero dizer mal da senhora locutora que a substitui. Mas, nos meus parâmetros avaliativos de ouvinte, falta-lhe algo, que talvez se possa resumir em duas palavras: naturalidade elaborada (inteligentemente elaborada: bom uso da boa voz que é dom da natureza). Lembram-se da naturalidade elaborada que o grande Almeida Garrett nos ensinou a fazer na prosa literária? Era o que fazia a minha querida locutora na locução. É só isso.

Nota 3: Desta vez, acho que vou queixar-me ao provedor. Vejam bem, eu que não acredito na moda do provedor. E então, nos órgãos de comunicação social! Provedor do leitor? Provedor do ouvinte? São provedores mas é do patrão que os nomeia. Mas desta vez sim, vou tentar: mando este texto para o senhor provedor.

Observação: Remete-se o deparante de acaso ou adrede visitante para a rubrica 65 de Tento na Língua! – 1.

Má notícia, nota menos má

Janeiro 4, 2010 - Deixe uma Resposta

“Nova ortografia sem manuais nem critérios de aplicação” (Título em DN 31/Dez/09, p. 49)

Lead:

“Polémica. É já amanhã que o novo Acordo Ortográfico para a língua portuguesa começa a ser aplicado em Portugal. A falta deregras e critérios claros é a principal falha apontada. A ministra da Educação pede mais tempo para a sua introdução.”

Corpo da notícia:

“O Acordo Ortográfico para a língua portuguesa começa a ser aplicado a partir de amanhã [01/01/2009]. Há quem o compare ao terramoto de 1755 ou ao projecto do aeroporto da Ota.[…]”

Assim começa a má notícia. E assim por aí fora…

A nota menos má é do próprio DN que declara que

“ não o vai, contudo adoptar, desde já, não por qualquer oposição, mas porque a sua integração vai requerer tempo de adaptação. Assim como no ensino há uma moratória que define o seu tempo de aplicação, também o DN terá um período de preparação.”

E eu, perante toda uma polémica que já dura há quase 25 anos, sem resposta aceitável por parte da maioria dos falantes, pergunto: estamos num País de loucos, abrangendo, tal loucura, as instâncias responsáveis pelos destinos do País, do seu Povo e da sua Língua?

Ó Vasco Graça Moura, então, e agora?

A palinódia de Vasco Graça Moura

Janeiro 2, 2010 - Deixe uma Resposta

Foi preciso o País bater no mais fundo do charco (ou da “choldra”) para voltarmos a ter nos jornais peças do mais lídimo, autêntico e infelizmente mais que merecido sarcasmo político. Refiro-me à crónica de Vasco Graça Moura (VGM) no DN “Palinódia” (29/12/09, p.54). Não deixem de ler.

Não será este VGM digno de um Junqueiro da Pátria, de que o próprio Junqueiro diz: “Escrever a Pátria e escrever o Prometeu Libertado […] hesitei muito. Por fim decidi-me pela Pátria, que é a visão do momento histórico português sub specie aeternitatis” Vejam vocês bem, isto era no século XIX ? Ai se o velho Junqueiro viesse cá hoje! E o Eça! E todos aqueles satíricos oitocentistas! Desse Junqueiro que “teve o aplauso e o louvor unânime da crítica do seu tempo, podendo-se dizer que nenhum da sua época foi tão festejado e elogiado”; “de quem Sampaio Bruno disse que era o maior poeta da contemporaneidade”; “Teixeira de Pascoaes, segundo refere Raul Brandão nas Memórias, afirma que nas sátiras foi maior que Juvenal. Nesta ordem de ideias tudo se disse e escreveu sendo comum a opinião, entre homens de letras, que ele era o primeiro poeta latino depois de Vítor Hugo. E só a intervenção de António Sérgio [tão politicamente correcta, esse António Sérgio!] veio pôr cobro à fama do genial poeta e atirar para o limbo do olvido tão alto vate.  (Cf. G. E. P. e B.).

Para quem não saiba ou não queira dar-se ao trabalho de consultar as etimologias, aqui vai:

Palinódia s.f. 1 poema em que o autor se retracta do que disse noutro poema anterior; 2 [fig.] retractação; 3 [fig.] mudança de crença política (Do gr. palinodia, “canto com outra música”, pelo lat. palinodia-, “palinódia”) (Dic. Porto Editora, 2003) Acrescenta-se: Palinódia (Do gr. palin, adv: para trás, contrariamente, de novo + odé, canto, pelo lat. palinodia, “palinódia”).

O que eu não entendo bem é que este VGM, que eu tanto admiro (até pela antiapologética do Acordo/Desacordo), se tenha mostrado tão acérrimo defensor de uma líder de um partido e mesmo desse partido que, toda a gente o sabe, tanto ajudou este País a dar com o fundo no charco, ou na “choldra”, não já do Afonso da Maia,  ou no Finis Patriae de Junqueiro, mas nesta nossa choldra de que não conseguiu sair, antes, pelo contrário, mais incrivelmente ‘choldrado’ está (estamos)!