Ao(s) sábio(s) da ‘Real’ Academia das Ciências de Lisboa

NO DESERTO: AVESTRUZES, WELWITSCHIA MIRABILIS, MIRAGENS E UMA INOCENTE PERGUNTA

Imaginem vocês, há tanto tempo que ando com ela ferrada na cabeça, e só nesta quarta-feira – 18/11/15 – me deu para verificar a ortografia usada na crónica do habitual cronista dessa página, Adriano Moreira (vide DN dessa data, pp 12 e 13). E, tendo-me alguém chamado a atenção para o caso, qual não foi o meu espanto ao confirmar que Adriano Moreira, presidente (que é ou que foi) da ‘Real’ Academia das Ciências de Lisboa, instituição oficialmente responsável (ou geralmente considerada como tal, desde que me lembro) por velar pela língua portuguesa, incluindo a ortografia, que, afinal, esse Sábio usa, no seu português escrito, o tal ‘acordês’, ou por outra, “essa coisa obscena chamada Acordo Ortográfico” (Vasco Graça Moura). Fui ler então A nave dos loucos. E, verdade se diga, quanto às tais ‘consoantes ditas mudas do Acordo (AO90, claro), encontrei nesta crónica por oito vezes só e apenas uma: o c antes do t – projeto, objetivos, afeto, perspetiva, atualidade, tática, objetivos, projeto. Mas não vou acabar este parágrafo sem referir que há muito tempo trago por aqui no computador um trabalhinho precisamente chamado ‘As tais consoantes ditas mudas do Acordo’ e que, se tiver vida e saúde e mo permitir a disposição, há-de ainda um dia destes aparecer aqui no blogue. Deparantes de acaso ou adrede visitantes, não percam a esperança...

[Chegada a 4ª-feira seguinte, 25/11/15, pude verificar os 5 exemplos de consoantes mudas nessa crónica: adjetivação, objetivos, fatores (será muda, esta?… escutem bem: factores ), protecionismo (e esta?… proteccionismo), atos].

Mas então porquê aqueles temas do sub-título que trazem consigo a evocação do Namibe? Pois. Lá iremos. Foi no Liceu Adriano Moreira,(notem bem!), em Moçâmedes, que iniciei, na Angola de então, a docência: 1 turma de Português (3º ano) e outra turma de Latim (11º). Um dia, com mais três compinchas, combinámos ir por ali abaixo até ao Deserto do Namibe. No meu ‘2 cavalos’, pois claro. Eis senão quando– a maravilha! – parados na estrada, verificámo-nos cercados de “água” por todos os lados, como se estivéssemos rodeados por um grande lago à nossa volta. A toda a volta, a vegetação se reflectia para baixo à superfície da “água”… E ali ficámos um bom bocado, embevecidos pela ilusão das miragens!… Mais para baixo, já no deserto, as avestruzes corriam por cima da vegetação, quase por nós enxotadas, por certo também da welwitschia mirabilis

“Lago das Miragens

Se eu morrer um dia aqui neste deserto,
atirem meu corpo ao Lago das Miragens!…
Assim bem fundo no sopé
daquele morro imóvel reflectido.
Talvez o meu desejo lá no fundo
alimentasse raízes destas welwitschiae mirabiles
que enterram no deserto o seu segredo…

Se eu morresse aqui… ou mesmo vivo
se no deserto chovesse o meu desejo
(neste deserto selvagem que em nós se transmudou)
seria revelado aos homens o mistério
deste não-sei-quê que não nos é propício…

Deserto-mar da Ilusão
dos que sofrem a sede da vingança
ou talvez só a sede da Justiça.
Se eu morrer aqui neste deserto
enterrem-me corpo e alma no lago-mar da Ilusão.”

(Moçâmedes, Deserto do Namibe, 1967, publicado in O PROFESSOR, Jan./Abril 2005.p. 66)

Mas voltemos ao ‘nosso’ Liceu Adriano Moreira, ou melhor, ao patrono do liceu, porque tudo o que fica escrito com ele tem algo a ver. Personalidade de grande envergadura, ministro do Ultramar de então, sócio da Academia das Ciências de Lisboa e depois seu presidente (e, na verdade, não sei se ainda o é…). E voltámos aqui porquê? Para quê? Para fazermos ao Sábio (e aos outros Sábios seus sócios), uma pergunta inocente.

Porque que é que esse homem tão importante e sábio, com um importante currículo, sinal de sabedoria, como é o dele, assim tão ligado à Academia guardiã da Língua Portuguesa, consentiu a RATIFICAÇÃO do Acordo (e, pelos vistos, consente ainda porque na sua escrita usa “essa coisa obscena chamada Acordo Ortográfico”)?

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Dois grupos lexicais parónimos e não homónimos

Ante-scriptum: Na loja onde comprei os óculos, sentado diante da secretária da senhora atendedora, olhei à minha volta, para o décor da sala, e vi, em vários sítios, a palavra óptica (assim escrita com o “p” antes do “t”). Noutros sítios estava ótica (sem, ´p´, como, por exemplo, no saco em que me entregaram os meus óculos). À entrada do supermercado em que está integrada a loja, podemos ver no cartaz da dita, em letras garrafais de publicidade, a palavra ótica sem o “p”. Foi por isso que me decidi a compor este ’post’.

1.
ÓPTICA
(nome substantivo): parte da física que se ocupa da luz e dos fenómenos da visão (ou de artigos que têm a ver com a visão, como, p. e., óculos… (Etimologia: do substantivo grego optiké).
ÓPTICO/ÓPTICA (adjectivo): referente à óptica ou à vista; visual; o que fabrica instrumentos de óptica; oculista […].

Atenção à ortografia e mesmo à prosódia: por mais que “uma coisa obscena chamada Acordo Ortográfico” (na feliz expressão de Vasco Graça Moura) insista na asneira de os considerar homónimos, nunca este grupo (da óptica) poderá deixar de se escrever com o ‘p’ que precede o ‘t’, Por duas razões, a etimológica e a prosódica: é que aquela consoante “p” não será assim tão muda (quando muito, poderia dizer-se “semimuda”, porque os falantes sabedores pronunciam-na: “óptica”, pois.

2.
ÓTICO/ÓTICA (adjectivo): do ouvido; relativo ao ouvido; diz-se do medicamento contra as dores dos ouvidos. [Etimologia: do grego ótikos, “auricular” pelo lat. oticu; da mesma família do “oto” de otorrinolaringologia; elemento de formação de palavras que exprime a ideia de “ouvido”: do grego ous- otós – ouvido ].

Nota final: Posto isto, não vejo onde possa haver confusão entre as palavras destes dois grupos lexicais, nem que razão assistirá a esses ignorantes que mandam escrever as palavras do grupo 1 sem “p” ou do grupo 2. com “p”!…

Mensagem a Gonçalo M. Tavares

Caro Gonçalo M. Tavares,

Ao abrir o último Notícias/Magazine (19/01/14) na última página (a do seu ‘senhor Voltaire e o Século XX’), apanhei um grande susto quando dei logo com os os olhos no erro ortográfico do título, garrafal negrito: Objetos [sic], sem a tal consoante muda. “Será que o Gonçalo deu o dito por não dito?!”… E corri logo, a ver o dito – depois daquele tração preto ao fundo – dito que, de tão fanado, não consegui ler sem recorrer à lupa! – porquê, Senhores do Magazine?! Mas, finalmente, tranquilizei-me: era mesmo um erro ortográfico. E logo a primeira palavra do título! Quero que Gonçalo saiba (e, já agora, também  a Ana Bacalhau) que compro o DN para ler, sobretudo, os cronistas que escrevem em português lídimo. Não perco, é claro, o Baptista-Bastos à quarta, a Ana e o Gonçalo ao domingo,  e outros que os leitores sabem quem são. Em ‘brasileiro’ condescendo, ao sábado, por causa do ‘Q’ que também não perco. Vejam vocês, eu que era leitor diário do DN!…

Como este grande escritor (já fui com ele numa Viagem à Índia!…) não indica o seu endereço, peço à Senhora Directora o favor de lhe reencaminhar esta mensagem, com os meu gratos cumprimentos .

António Marques

Pessoas e coisas que eu não entendo: Vasco Graça Moura / Carlos Reis

Compro o DN todas as quartas-feiras. Para ler duas crónicas: a de Baptista Bastos e a de Vasco Graça Moura. Mas desde já digo que as deste último leio-as, geralmente a contragosto. Não pelo estilo – grande escritor, bom poeta e ainda melhor poeta-tradutor. E, nesse aspecto, merece ser lido. Quanto às ideias, aí, deixa-me muito baralhado: acérrimo militante contra “uma coisa obscena chamada Acordo Ortográfico” (na sua voz), é politicamente que ele me faz virar o juízo. Li, pois a sua crónica da quarta-feira passada (31/07/13): “Ainda o apanhamos”. Esta, porque pode ser neutra, é mesmo de não deixar de ler. “Ainda o apanhamos”: é assim que termina, como toda a gente escolarizada deve saber, o célebre romance Os Maias de Eça.Quem, por obrigação profissional, teve de ensinar Eça de Queirós no ensino secundário, não pôde passar sem frequentar o professor catedrático Carlos Reis, “sem dúvida, um dos maiores especialistas contemporâneos da obra de Eça de Queirós…”.

Mas eu, sinto uma pedra no sapato e não sei como livrar-me dela. É simples: como é que Vasco Graça Moura se entende com Carlos Reis quando falam (se falam…) n’“essa coisa obscena chamada Acordo Ortográfico”. E agora, perante as repetidíssimas notícias sobre os resultados negativíssimos dos exames de Português, tenho mesmo de perguntar aos dois tão ilustres entendidos na matéria: alguma vez falaram em que a  mais que provável  causa maior  desses resultados é, sem dúvida, a bagunça em que puseram a língua portuguesa com a ratificação ( a meu ver ilegítima, acho mesmo que ilegai, inconstitucional…) dessa tal “coisa obscena”?!.. Falaram nisso? Não falaram? E, enquanto falavam, não disseram os dois: “ainda o apanhamos”?!…

Em verdade vos digo, senhores ilustres professores e literatos, que enquanto não desratificarem (ia-me saindo desratizarem…) essa absurda ratificação, os resultados não vão melhorar. É que ninguém entende nada, ninguém se entende! E entretanto a língua – a nossa língua – vai-se deteriorando, não melhorando, não evoluindo. E “essa coisa obscena” vai-se tornando cada vez mais obscena; vai-se estragando e estragando a média avaliativa dos nossos alunos!

“Nublosa”, ou ignorância crassa da língua pátria

“O financiamento partidário esteve sempre envolvido numa enorme nublosa.” (Diário de Notícias, Editorial, 15/Julho/13)

É no DN, sim senhor. E ainda por cima, no editorial. Uma ignorância, eu diria universal. Mais do que ignorância: uma bagunça! Ilegítima. Ilegal. E os governantes ainda não deram por isso? Pois. A ignorância é universal. Porque, se não fosse, nunca estaríamos a assistir a esta baralhada que chega em cheio aos bancos dos exames de Português. Pudera! Até os deputados são ignorantes! Os que votaram pró e os que se abstiveram. Porque, se não fossem, não teriam autorizado essa  tal “ratificação” que mais pais nenhum se atreveu a fazer no universo da lusofonia.  E, se é ilegítima, ninguém tem obrigação de a cumprir. Bem pelo contrário! Cumpri-la é concordar, post factum, com a estragação que se está fazendo da Língua Portuguesa.

Como fazer para pôr cobro a esta desgraça? (Eesta era a única desgraça que nos faltava: desgraçar a língua!). Desgraça que, na oportuna expressão de Vasco Graça Moura, é “uma coisa obscena chamada Acordo Ortográfico” e, na minha própria expressão, “o Alcácer Quibir da Língua”.  Como remediar? Para revogar – o que não foi possível à demissão do outro! –, basta, senhores, uma penada da Assembleia! Para acabar com esta bagunça estragadora da língua, basta, Senhores Deputados, uma desratificação. (Olhem, ia a fugir-me a língua para a verdade: se calhar, queria eu dizer desratização!… Desratização? É isso: desratizar o nosso português).

Meus Senhores, tenham pena dos falantes, que já não sabem como hão-de falar! Tenham pena dos milhares de alunos (e os professores?…) que já não sabem como hão-de escrever! E  os jornalistas, sabem?…

Mas voltemos à “nublosa”. ‘Nublosa’ só existe, em português, como feminino do adjectivo ‘nubloso’ (forma popular do erudito ‘nebuloso’). O único substantivo ou, vá lá, nome (como os tlebs de agora querem…) que, nessa família, existe em todos os dicionários portugueses de Portugal, e brasileiros do Brasil, é ‘nebulosa’, forma feminina, substantivada, do adjectivo ‘nebuloso’ (esta, forma erudita de ‘nubloso, sim senhor), cujo étimo latino é nebulosu-. ‘Nublosa’ substantivo, não!

“Jogo da Língua” (Antena 1): dois casos que fazem pensar

1. Foi há poucos dias e a questão era saber se o grau superlativo absoluto sintético de ‘célebre’ era ‘celebrérrimo ou ‘celebérrimo’. É claro que o concorrente, deitando fora aquele barbarismo que não lembraria senão à senhora doutora que superintende no Jogo, respondeu que era pela alínea que dava como correcta a forma ‘celebérrimo’.
– Sim senhor, estava certo, é celebérrimo? Porque – palavras da senhora doutora – “celebérrimo é um adjectivo latino que serve de superlativo absoluto sintético do adjectivo português célebre”. Estou a citar de cor, mas a coisa era tão esquisita, que eu poria as mãos no fogo se não foi assim… Ora uma explicação nestes termos só tende a confirmar-me que a senhora não se dá lá muito bem com o latim, porque , se desse, teria esclarecido a coisa de outra maneira. Por exemplo, assim:É que, em latim, o superlativo absoluto sintético dos adjectivos com o nominativo do singular terminado em ‘er’ formam o superlativo absoluto sintético (antigamente dizia-s ‘simples’) em -errimus, -errima, -errimum; e isto, quer o adjectivo seja da primeira classe – pauper, paupera, pauperum –, quer da segunda classe – celeber (celebris), celebris, celebre.  E assim passaram (regra geral) para o correspondente português: pobre (pauper) – paupérrimo; célebre (celeber) – celebérrimo; etc. E este superlativo em ‘érrimo’ tonou-se tão expressivo, que, não raro, por brincadeira, se recorre a ele para superlativar (patuscamente…, mas muito expressiva e enfaticamente) outros adjectivos que não têm nada a ver com o étimo latino. Por exemplo: ‘chiquérrimo’, ‘grandérrimo’, …

2. No Jogo de ontem, 19/06/13, perguntava-se se ‘hipertensão’ se deve escrever, segundo o novo acordo, com ou sem hífen. Respondeu o concorrente:
– Sem hífen.
– Sempre escreveu assim? – perguntou a locutora.
– Sim, sempre escrevi assim.

Ora , francamente, o que seria de perguntar era se alguma vez, depois da reforma ortográfica de 1945, se deveu (ou se deve) ter escrito (ou escrever) aquela palavra com hífen… Ou então, porque se utilizou a expressão ‘segundo o novo acordo’? Foi para gozar com a gente ou quê?…